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Everything Else

azul ou vermelho

1.11.2012

Alô pessoas bonitas, tudo bem? Aqui é o Daniel Granato, novamente, como todas as quintas – roubando um pouquinho o espaço da Mel-. Hoje escolhi um texto meu para a minha coluna do dia. Espero que gostem :) beijos a todos!

Azul ou vermelho

Ela se prostrou em frente ao espelho. Com seus músculos rijos e faces ruborizadas pelo pó salpicado em suas maçãs do rosto, quedou-se a mirar seus traços, trejeitos ao fixar-se numa só posição, estática em frente ao espelho, talvez esperando que o mesmo lhe desse a resposta que ela tanto esperava.  Mas não. A resposta não veio, trocou o vestido de cor vermelho vivo rapidamente, como se do mesmo quisesse livrar-se, como se este fosse sua segunda pele e quisesse expeli-la terminantemente de seus poros originais, e suspirou.

Definitivamente, o azul ficava melhor. Realçava seus olhos, seu tom de cabelo, suas saboneteiras protuberantes-denotando magreza-, fatalmente a colocaria no pódio das três mais belas da festa, com a mais inequívoca certeza. Mas o vermelho tinha sido um presente dado por sua irmã, que conhecia seu gosto quase melhor que ela mesma, deixando a sensual sem ser vulgar, chique como uma atriz europeia em alguma avant-première sob um tapete reluzente e flashes por todos os lados. E mulheres menores com vestidos menores a invejariam, ah se invejariam.

Já se encontrava assim há horas, e quando não se prostrava em frente ao espelho, ia pé ante pé pelo quarto, como em uma procissão religiosa e frenética pelo quarto inteiro como se uma resposta divina fosse cair do céu, como se uma chama ardente queimasse seus tornozelos, testando mil vezes qual seria o tecido mais confortável, mesmo sabendo que ambos lhe caíam bem e serviriam perfeitamente bem para seu propósito na noite.

O vento uivava, as horas urgiam, os ponteiros do relógio do quarto meticulosamente marcavam seu tempo expirando e avisando que a festa já estaria começando em instantes, deixando-a cada vez mais irrequieta e insegura de si, insegura com a cor de sua segunda pele.

Azul, vermelho, azul, vermelho, olhava-se, virava-se, media suas nádegas com assaz meticulosidade ao espelho. Qual as demarcava melhor, com qual a deixava mais abrasivamente bela, se este ou aquele deturpava seu verdadeiro eu ou apenas um ou outro reacendia-o mais. Azul, vermelho, azul. De repente a casa silenciou-se, tudo que se ouvia era o uivo do vento lá fora, o tique-taque ininterrupto dos relógios, enervando-a cada vez mais, tudo conspirava para sua indecisão. “Uma conspiração”, ela pensou. Nem um sinal de alguém na casa para uma opinião, um som, uma voz que sanasse a questão. Vermelho, azul, vermelho. Era ela que lutava contra si mesma, não havia jeito são de fenecer sua indecisão e impor uma resposta à própria mente reticente.

Ouviu-se um grito. Ele veio de sua própria garganta. Queria dar um jeito, decidir-se, tentava respirar e acalmar a dúvida latejante. O celular tocou. Olhou para o visor; lhe chamavam para a festa, que já há algum tempo havia começado. O tique-taque do relógio. O som do vento. A noite adormecida. Correu pra gaveta, agarrou uma tesoura. Teve uma ideia. Agarrou o vestido. Qual deles? Não fazia muita diferença. Enfiou a tesoura, cortou, repicou, enfiou novamente até gotas de suor escorrerem de sua testa. Com a tesoura molhada pendurada entre seus dedos, ergue-se do chão, vestiu-se e olhou-se no espelho. Estava satisfeita. Azul como seus olhos, vermelho como seu sangue. Não saberia dizer se estava vestida de sangue ou perdida, navegando em mares azul-turquesa.

Por

Daniel

  1. Marina Vasconcelos says:

    Vivo como o vermelho e doce como o azul. <3

  2. ADI says:

    Daniel, adorei seu texto! Me identifiquei muito com ele.

  3. Lindo o texto, muito criativo e bem estruturado, adorei! *-*

  4. Mel, e a categoria “Seu Texto no Blog”, não vai postar o próximo tema?

  5. Adorei o texto, Daniel, você escreve muitíssimo bem e encanta! Parabéns!

    Pin, que foto mais linda….adorei!

    Beijinhos

  6. Parabéns, você tem muito talento… já pensou em escrever um livro?

  7. Camila Gerarde says:

    Texto muito bom, parabéns, adorei!

  8. Maravilhoso.
    “Era ela que lutava contra si mesma, não havia jeito são de fenecer sua indecisão e impor uma resposta à própria mente reticente”
    Essa frase expressa bem o que se passa na mente de uma pessoa indecisa (leia-se: aquela que vos escreve) ou qualquer pessoa num momento de indecisão. Aliás o texto todo expressa isso muito bem (acho que eu vou mostrá-lo à minha mãe, quem sabe ela me entende melhor).
    Apesar de azul ser a minha cor preferida, fico com o vermelho. Me ganhou com “uma atriz europeia em alguma avant-première”.

  9. Daniela says:

    Olá só,ele é meu xará e ainda escreve? amei *-*
    http://www.avidaemletras.com/

  10. Thaina says:

    Mel , sei q aqui não é lugar e tals . Mas gostaria de saber se poderia fazer mais post’s das suas agendas , jornals entre outros . Acho tãao fofo >.< obg desde ja :)

  11. Catarina Leal says:

    De uma linda forma você soube felar sobre a indecisão das mulheres para se arrumarem para sair, e realmente é assim que acontece e nesse caso eram só dois vestidos é mais complicado quando não sabemos com que roupa vamos…

  12. obrigado, pessoal! obrigado de verdade!
    não imaginam o quanto fico feliz de terem gostado (:
    beijos a todos!

  13. vivi says:

    Poxa, muito bom Daniel!! Você escreve muito bem mesmo! Eu fiquei morrendo de dúvida como ela! Fiquei curiosa pra ler até o final e saber o que ia acontecer, e me surpriendi ! Hahah, gostei muito!Parabens!

  14. Manuella says:

    Não me canso de ler esse texto!
    Todo dia… todo santo dia venho ler ‘-‘


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