Everything Else

A volta do garoto da camisa listrada

3.06.2013

melinasouza

Há alguns meses escrevi e publiquei no A Series of Serendipity um conto chamado Listras e Lembranças. Hoje, quando estava respondendo e-mails recebi um presente. A leitora Fernanda Lamounier disse que o meu conto despertou nela uma vontade de escrever e foi o que ela fez em A volta do garoto da camisa listrada, uma continuação pra minha história. Gostei tanto do presente que vim compartilhar com vocês :)

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Eu poderia dizer meu nome. Mas não o farei. Nomes podem ser perigosos. Talvez, se eu revele o meu, você me procure no Facebook ou ache resultados jogando meu nome no Google. Talvez essa simples palavra revele minha aparência e faça com que você me julgue por ela. E não é esse o meu objetivo. Por isso prefiro ser conhecido apenas como o Garoto da Camisa Listrada.

Faz algum tempo que, passeando pelas dimensões dos sonhos, encontrei uma menina que dormia sonhando com Londres. O sonho era preto e branco, sem graça aos meus olhos. Talvez fosse magnífico para ela, a julgar pelo seu sorriso adormecido pelas estrelas que brilhavam na janela. Aquele sonhos me induziu a modificá-lo. A entrar nele e me encontrar com aquela menina adormecida, conhecê-la. E assim o fiz, colorindo-o. Melina, era seu nome. Não temo dizê-lo, pois Mel é uma garota especial e creio que muitos a conhecem, afinal, ela não vive nesse anonimato que eu escolhi.

Me lembro vagamente daquela tarde, em um chuvoso e frio dia de setembro, como Mel adora. Nesse tempo que volta a ser cinzento em Londres, me forçando a usar não só a camisa, mas o cachecol listrado, voltei a me lembrar daquela garota sardenta e meiga. Bateu aquele sentimento de carência, falta… saudade. Da Mel, da câmera dela, daquela risada e do sotaque de quem claramente nunca tinha vindo à Inglaterra.

Foi para lá que me dirigi: a casa onde pela primeira vez havia encontrado aquela bookaholic, blogueira e fotógrafa. Uma carta já se encontrava na sua mesa e tinha certeza que Melina a encontraria na hora certa. Esperei encostado a um poste, observando o passar dos Black Caps e dos Red Bus. Ouvi a porta se abrir atrás de mim. Mel estava diferente. A franja maior, os lábios mais rosados, o sorriso mais largo. Ela também usava uma camisa listrada, e me perguntei se isso seria algum tipo de brincadeira. Uma pequena bola de pêlo saltitava atrás dela. O famoso Spock. Eu sorri ao vê-la e ela retribuiu o gesto.

“Que pontualidade britânica!”, disse a ela, em meio a um sorriso.

Ela abaixou para pegar Spock no colo, tomando cuidado para não deixar sua polaroid cair. No seu rosto havia um sorriso contagiante e olhos verdes que mostravam curiosidade, como se pudessem me perguntar: aonde vamos?

“É bom ver você de novo, Camisa Listrada”, ouvi sua voz pela primeira vez em meses. Elas olhou maravilhada para a paisagem de Londres em plena primavera. “Estou sonhando?”

“Isso depende no que você pensa que é sonhar”, cheguei mais perto dela. “É possível sonhar acordado.”

Estendi minha mão e senti uma corrente elétrica subir pelo meu braço ao toque quente de seus dedos, cujas unhas estavam pintadas de azul. Com a mão livre, sinalizei para que um Red Bus parasse. Da última vez, eu e Mel tínhamos andado no Underground, dessa vez andaríamos nos ônibus vermelhos de dois andares. Ela estava animada, fazendo com que a nossa trilha sonora da viagem fosse um conjunto de clicks de câmera e murmúrios de músicas do She & Him.

E, bem, o que posso dizer do resto do dia? Não há palavras para descrever nossa visita à plataforma 9 ¾, na King’s Cross Station, nosso piquenique no Hyde Pak ou nosso passeio de bicicleta pelas margens do Thames. Honey Pie fez questão de voltar à London Eye e ao Big Ben, é claro. Também deu tempo de uma pequena sessão de cinema, com direito a pipoca e óculos 3D. Spock ficou de fora, mas acho que ele gostou de fazer amizade com os lindos labradoodles do outro lado da rua.

Como explicar a sensação de formigamento toda vez que ela fazia comentários exclamados por sua surpresa adorável, ou o modo como ela me fazia rir fácil ou talvez o jeito como eu e ela falávamos frases aleatórias que nos faziam trocar olhares significativos. Eu reconheci a sensação, apesar de nunca tê-la sentido antes. De ter um amigo.

Pode parecer estranho, considerando que viajo todo dia por diferentes dimensões e conheci milhões de pessoas. Mas não posso chamá-las de amigas. Mel é diferente. Ela, como eu, vive em diferentes dimensões, mesmo que não perceba. Em seus sonhos, ela viaja tanto quanto eu, para terras onde é possível montar em unicórnios, planetas onde zumbis são habitantes comuns e países onde o futuro já chegou. Ela nunca está lá fisicamente, como eu, mas pelo menos pode estar lá psicologicamente. Não foi à toa que ela prestou faculdade de Psicologia.

O dia acabou, amanhã ela provavelmente acordará, pensando que foi tudo um sonho novamente, que eu era fruto de sua fértil imaginação. Então ela olhará para sua escrivaninha, onde as fotos estarão, um vestígio da noite anterior. O moleskine ainda aberto, com relatos da tarde que passei em sua companhia na capital inglesa, com apenas uma diferença: um envelope lacrado em meio às suas páginas. Ela terá aquela sensação de dejá-vu, como se fosse tudo um filme que ela via pela 2ª vez.

A mensagem dirá, numa caligrafia conhecida de tempos atrás: “Mais uma vez obrigado pela viagem, mocinha, agora que não podemos chamar mais nossos encontros de sonhos. Eles são reais, como sabemos. Sei que você tem perguntas, e temo que não possa responder todas elas. Elas serão reveladas com o tempo. Não se preocupe, eu voltarei. Não sei quando. Um abraço e um beijo do garoto de camisa listrada”.

Sei que o nosso reencontro depende de mim. Queria continuar ao seu lado agora, mas não acho que nossa amizade sincera duraria para sempre se nossas tardes fossem eternas. Elas são especiais. Situações especiais são raras, por isso tão ansiadas. Eu e Mel não somos mais dois estranhos pelas ruas de uma cidade ainda mais desconhecida; somos dois amigos pelos caminhos utópicos de nossa amada Londres.

Para Melina, do blog A Series Of Serendipity, por Fernanda Lamounier

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Fernanda, muito obrigada pelo presente lindo. Amei e até me animei para escrever mais alguns contos ;)

E aí, o que vocês acharam, pessoal?

xoxo

Por

Melina

  1. Arthur Vinícius says:

    Eu acho uma ótima ideia :))

  2. Rebeca says:

    Nossa Mel, que perfeito *–* Adorei tanto esse conto quanto o outro, e ambos me fizeram viajar pelas doces palavras dos autores. Desejo tudo de bom pra você, mel, e quem sabe um dia eu não consigo fazer um texto a altura pra você? Beijos.

    http://rebeccafranca.blogspot.com.br/

  3. Dani says:

    Nossa, esse conto está incrível (meus parabéns para a Fernanda).Eu amo ler contos o quanto de escrever eles.Que pena que eu não li o seu conto primeiro,mas vou ler agora mesmo!Melina,espero que continue escrevendo.Concerteza vou conferir todos :-)

  4. Isadora says:

    Mel, acompanho o blog há algum tempinho e acho que só comentei aqui umas 3 vezes, porém esse texto merece aplausos. Meus parabéns a Fernanda, o texto ficou lindo e ela fez eu ficar com vontade de escrever bem também, hahaha.

    Adorei o post!

    Beijos,
    Isa.

  5. Cristiene Freitas says:

    Oiies Mel! Que texto liindo! haha Acho que você está muito inspiradora (e sempre foi!). Será que o garoto de camisa listrada é o Doctor Who? =P Aaah e lembra quando disse que tinha uma surpresa para a senhorita? Aqui está, no grupo do ASOS no facebook:

    https://www.facebook.com/photo.php?fbid=315287845271680&set=gm.454701374623737&type=1&theater
    Espero que goste!^—^

  6. Geovanna says:

    Oi Melina (: Que texto mais perfeito (Parabéns Fernanda)!!! Lembro quando li “Listras e Lembranças”: me encantei logo de cara!, pois é o tipo de história que eu gosto de ler. Amo histórias que envolvem sonhos, tempo, outras dimensões etc (: Melina adoraria se vc fizesse mais alguns contos, seria muitíssimo agradável passar minhas manhãs lendo-os! Ah’ amei também o conto “Entre Páginas e Lugares”… Bjo, Boa Noite!!!

  7. Maria de Fátima de Menezes says:

    Amei esse conto. Muito lindo e sutil! Parabéns a autora! :-)

  8. Barbara Sá says:

    Adoreei Mel, o seu e o da Fernanda.
    Vou ficar esperando novos contos seus, hein.

    Beijos,
    http://www.segredosentreamigas.com

  9. Adorei o texto, a Fernanda escreve muito bem e tem uma imaginação que encanta! Adorei a continuidade do seu conto, sem dúvida alguma, um presente bem lindo!

    Beijinhos no coração

  10. Neide says:

    Ola flor!Tudo bem?
    Passando para conhecer seu cantinho e adorando tudo!
    Parabéns e sucesso.
    Aproveito para convidar você e suas leitoras a conhecerem o meu e se gostarem pode seguir…hehe
    Um super beijo:)
    Blog:
    http://neidebraga04.blogspot.com.br/
    Fan page:
    http://www.facebook.com/pages/Blog-Neide-Braga/340863686015726?ref=hl

  11. Fernanda Lamounier says:

    Que bom que você gostou, Mel! Obrigada pelo post, lindo como sempre!
    Beijos,
    Fernanda.

  12. Seu blog é fofo demaissss!
    Delícia de ler…

    Parabéns.

    Bjs

  13. Joana Lopes says:

    Adorei o conto,me fez lembrar um pouco com o livro “A Probabilidade Estatística do AMOR á Primeira Vista”, acho que ela deveria escrever um livro saído desse conto fantástico e cheio de vida e paixão com que ela enfatizou o seu verdadeiro ser mel.
    Se ela escreve-se o livro dessa historia eu iria correndo comprar, leria com carinho e esperaria ansiosa pela tarde de autógrafos como toda fã. Bjos e bons Sonhos Estrelados.

  14. Lala says:

    Que conto mais lindo *—*
    Adorei mesmo a continuação *———*
    Muuuuito amor!
    Eu já tinha lido o que você tinha escrito, Mel e simplesmente AMEI *—*
    Adorei <3
    Beijão, Lala.

  15. Vitt says:

    Completamente apaixonada pelo conto!!! Gostei mesmo!! XD

  16. Isabela. says:

    amei o texto irmanzinha com orgulho

  17. Fernanda says:

    Oi, Mel, eu estou com um blog de textos agora, se quiser oolhar o link é cadeirasimaginarias.wordpress.com!


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