Books

O Código Élfico (Leonel Caldela)

25.07.2013

IMG_8702 copy

Não se deixe intimidar pelo tamanho: O Código Élfico é um daqueles livros que conseguem “prender” o leitor e fazer com que centenas de páginas acabem em questão de dias.

Antes de continuar, confesso que encontrei uma barreira inicial com esse livro: quando vi que tinha elfos, pensei que seria “mais um” daqueles inspirados em O Senhor dos Anéis, com anões, magos etc. (não quero desmerecer esse tipo de literatura, mas a chance de cair em clichês é muito grande). Contudo, o autor foge da mitologia que virou tradição quando se fala de elfos: em O Código, eles não são criaturas bondosas e perfeitas, mas tiranas, sanguinárias e sádicas – e mesmo os menos violentos têm um senso de superioridade em relação aos humanos, que foram seus escravos em tempos passados.

Outro diferencial é que boa parte da história se passa no Brasil, em uma cidade fictícia chamada Santo Ossário. Lá, uma seita de fanáticos conduz rituais para abrir um portal entre a Terra e Arcádia, o mundo dos elfos, dominado pela Rainha da Beleza. Não vou contar muitos detalhes da história, para não estragar surpresas, mas adianto: o roteiro é extremamente rico, e no fim das contas o leitor sente como se tivesse visitado outro mundo (como acontece com O Espadachim de Carvão), mesmo com os elementos do “mundo real”.

IMG_8706 copy

Terror, suspense, ação e… magia

Descritivo na medida certa, O Código Élfico ajuda o leitor a “entrar” no livro. Uma vez lá, ele sente medo, alívio e até mesmo raiva conforme a história avança. Há cenas de suspense, de terror e de guerras, que integram muito bem a história central.

Os personagens são complexos, e não se encaixam em definições simplistas de “bom” e “mau”. Temos psicopatas, mercenários, fazendeiros, monges, estudantes, guerreiros élficos… Cada um tem seu papel, e você sabe que, quando entrarem em conflito, ninguém vai sair ileso. Aliás, Leonel Caldela é quase como o George R. R. Martin (só que mais piedoso): não tem medo de matar personagens, mesmo que sejam protagonistas, o que aumenta a seriedade da história.

Para os fãs de quadrinhos, fiz algumas comparações entre os personagens de O Código e personagens da Marvel: Felix Kowalsky se parece com o Deadpool, um mercenário habilidoso e que vive fazendo piadas; Astarte lembra o Capitão América, forte mas muito “certinho”; Nicole Manzini é uma versão meio rabugenta (mas carismática mesmo assim) da Jubileu, que ganha força conforme a narrativa avança; Salomão Manzini é um psicopata poderoso, como o Carnificina; por fim, Emanuel Montague é uma versão maligna do Surfista Prateado, forte, mas submisso a uma entidade superior (a Rainha da Beleza, no caso dele, e o Galactus, no caso do Surfista Prateado).

O esperado romance entre Nicole e Astarte não chega a ser forçado e avança conforme os personagens evoluem – ao contrário do que acontece em certas comédias românticas, em que tudo se desenrola muito rápido e seguindo uma fórmula pronta. Poucos trechos da história são previsíveis, e o final é surpreendente.

Infelizmente, os capítulos iniciais focados no Astarte são meio confusos (algo proposital, já que o próprio personagem está confuso, mas que não deixa de incomodar) e, por alguma razão, o autor usa ênclises (“fazê-lo”, “tê-lo”, “disse-lhe”, “fizeram-no”) demais, e isso faz com que alguns trechos fiquem meio arrastados. De resto, o estilo do autor é excelente e me deixou com vontade de ler os próximos livros que ele pretende publicar.

IMG_8709 copy

Pra encerrar: o projeto gráfico é muito bonito (especialmente a capa), e o livro, mesmo grande, é confortável de ler. O único problema é que as margens externas são muito pequenas (um “mal necessário”, porque aumentar essas margens provavelmente aumentaria o número de páginas), mas logo você se acostuma. A fonte e a diagramação são boas, e os capítulos (que, pelo que entendi, têm títulos com referências a livros e filmes) estão divididos em focos – o que é um alívio para quem não consegue parar a leitura “no meio”.

IMG_8747 copy

IMG_8727 copy

Aperitivos

“Desceu as escadas. Voltou à cozinha, notou que se esquecera de examinar a área de serviço. Procurou a chave, abriu a porta, investigou a decomposição esperada. A última porta abria-se para o pátio dos fundos. Nicole destrancou-a e deu um grito.
– Olá – disse Felix Kowalski.
O ruivo enorme estava ali parado em meio ao capim, do outro lado da porta dos fundos. Vestia a mesma roupa: jaqueta preta pesada, calças surradas, botas velhas de trabalhador. Sorria sob o bigode.
– O que você está fazendo? – ela recuava, procurava o celular às cegas.
– Esperando você.
– Todo mundo sabe que estou aqui. E contei sobre você para a cidade inteira. Se eu sumir, qualquer um poderá identificar o culpado, todos me conhecem.
– Imagino, a famosíssima Maria.
Ela mordeu o lábio. Com o celular na mão, começou a teclar freneticamente.
– Espere! Não vou lhe fazer mal, Nicole.
Ela se deteve por um momento.
– Então sabe o meu nome.
– Sou seu fã – proclamou.
– Você é um maluco?
– Segundo alguns.
– É um maníaco?
– Só nas horas certas.
– Isso realmente não tem graça.
– Desculpe, sou péssimo piadista. Não acompanho os programas de humor atuais, não conheço nenhum bordão.”

(p. 52-53)

“Astarte deteve-se um momento, para que Harallad alcançasse-o. Não estava muito para trás, mas não mantinha o mesmo ritmo do príncipe. Harallad, apesar de ser seu mentor mais próximo, fora apenas professor de arco e flecha. Astarte educara-se nos caminhos da montanha com o maior montanhista de Arcárdia; aprendera a orientar-se nos ermos com o maior dos caçadores; treinara furtividade com o melhor dos espiões reais. Dominava, enfim, todas as disciplinas élficas, da esgrima à música, da forja à doma de cavalos. Embora Harallad fosse o mestre mais querido e habilidoso, seu domínio era apenas o tiro. Ele era quase um especialista em todos os outros, e a sua disciplina era considerada a mais importante, mais inerentemente élfica.
Mas ele era apenas Harallad.”

(p. 44-45)

IMG_8740 copy

ISBN: 9788577343423 Editora: Fantasy Casa da Palavra Páginas: 577 Nota: 4/5

p.s.: Quem quiser me adicionar/seguir no Skoob, é só clicar aqui \o/

Por

Equipe Serendipity

  1. Estou com ele aqui e ainda não comecei a ler, acho que era medo do tamanho.
    Droga! não vou nem terminar meu comentário, vou ir ler! :x

    A trilogia do Inimigo do Mundo que é do mesmo autor é muito boa :)

  2. Katarina says:

    <3 Tava ansiosa por essa!
    Mais uma ótima resenha, Gui! :)

  3. Foster jam says:

    Resenha legal,algo que eu achei tão assim bem feito,suas resenhas são ótimas e elfos são traiçoeiros..

  4. Eu estava aguardando essa resenha ansiosamente Gui, e você prossegue me surpreendendo! Algumas semanas eu estive com esse livro em mãos para presentear alguém, confesso que pensei em comprá-lo pra mim antes, mas acabei desistindo e não levei o livro, se o tal arrependimento matasse alguém… A sinopse desse livro é perfeita na medida certa e cheia de suspense, a capa é indecifrável e muito bonita ao mesmo tempo, e esse detalhe na parte de dentro da capa, quão lindo isso pode ser? Eu sou muito medrosa, portanto, isso pode acabar me atrapalhando um pouco, porém, essas criaturas são inteiramente novas pra mim, e eu estou muito curiosa em relação ao livro. Gui você está me falindo ok? rs’
    Vou confiar em você, não volto da Bienal sem esse livro! Resenha incrível, ah, você já sabe, eu digo isso toda vez…
    Beijos

  5. Eu amei a sua resenha, Guilherme.
    O livro parece ser incrível e pelos comentários acima o autor dele também. Confesso que não conhecia nem o livro nem o autor do livro, mas a sua resenha foi tão cativante que o livro entrou na minha listinha de desejos e nome do autor agora vai ficar gravadinho na minha memória.
    Parabéns pela resenha.
    Um beijo.

  6. PH Santos says:

    Ótima ótima ótima resenha. Sincera e bem direta. Adorei também as fotos. Acho que vou começar a fazer foto dos livros com meu cachorro também. Rs. Lente cinquentinha é vida, diz aí. ;P

    Parabéns pelo texto. Adorei.

  7. Amanda says:

    …mas… Não sei se me espanco agora ou depois. Deixa eu contar que nunca dei a mínima pra esse livro porque pensei que havia sido escrito por algum dos autores já famosos (não vamos citar nomes, ok? hahaha) do mundinho dos elfos. Só agora que li o nome do autor e qualquer coisa relacionada, porque sempre pulava as resenhas, plmdds.
    Ainda bem que não pulei a sua resenha também, olha. Agora sim me interessei! A capa é linda e como você disse que foge aos clichês, existe a possibilidade de eu gostar :D
    Acho que vou deixar pra ler depois que terminar de ler (2x na mesma frase, que agonia!) a trilogia Elfos de Bernhard Hennen, pra entrar no espírito HAHAHA
    Obrigada pela dica ♥

  8. Oi Gui!

    Essa é uma das capas nacionais mais interessantes que já vi na livraria, sabe. Os projetos gráficos da Fantasy são de tirar o fôlego. Eu estava na dúvida de pegar esse livro pra ler, mas gostei da tua resenha. Particularmente, personagens puramente bons ou puramente maus me incomodam, porque sabemos que a ‘vida real’ tem tons de cinza também. É esse aspecto que amo no Martin, e é isso que provavelmente vai me cativar em O Código Élfico. :)

    Sobre as ênclises, entendo o que você quer dizer. Além de deixar o texto arrastado, faz você pensar: “na boa, ninguém fala desse jeito”, hahaha. Né?

    Já leu Anjos da Morte, da série do Eduardo Spohr? A Batalha do Apocalipse eu não curti muito, mas a nova série dele, Filhos do Éden, é muito legal. No volume 1 ele tem alguns problemas de diálogos impossíveis, sabe, mas no segundo livro (Anjos da Morte), ele conserta tudo isso e deixa a leitura perfeitamente clara. É bem legal, e devorei em poucos dias, assim como você fez com esse do Leonel.

    Bom, já falei demais. Vou lá ;)

    Beijo!

    Raquel
    http://www.pipocamusical.com.br

    • Gui says:

      É verdade, Raquel! O pessoal manda muito bem na editoração e deixa muita editora estrangeira “no chinelo” hehehe

      Eu sou meio chato com diálogos “muito certinhos”, me fazem lembrar novelas brasileiras, em que os personagens sempre parecem que estão lendo o script, sem naturalidade.

      Os livros do Spohr estão na lista! Estou com o A Batalha do Apocalipse aqui, e também estou ansioso pra ler os outros. Vou me lembrar das suas dicas ;D

      Valeu!

      =*

  9. Vinicius Rodrigues says:

    Boa resenha, estou lendo (beeem devagar por causa de uns problemas T_T) mas o livro é fantástico, assim como a Trilogia Tormenta e o O Caçador de Apóstolos, recomendo todos os romances do Leonel Caldela fácil.
    E quando tiver a oportunidade de autografar, vai lá, o autor é mega simpático e atencioso =D

  10. Anne Raysa says:

    Eu sempre gostei desse estilo “fantasia”, desde a época de Harry Potter (que foi quando eu comecei a criar o hábito de ler) e parece que cada dia mais procuro por livros desse gênero. Será que é uma tendência?

    Você já leu “Crônicas dos Senhores de Castelo”? São de autores curitibanos e o livro é realmente bom (história, personagens, arte, diagramação, enredo).

    Ah, antes que eu me esqueça: em alguns posts não estão aparecendo os comentários, nem os meus nem os demais ^^

    Beijs, bom fim de semana!

  11. Meu irmão leu esse livro e adorou!
    Gostei bastante da sua resenha. Estou curiosa para ler.
    Beijos!

  12. Cada vez mais me sinto inspirada a expandir meu horizonte literário XD~. Fiquei muito interessada por esse livro, principalmente porque adoro elfos! Sendo eles bonzinhos ou não.

    E, realmente, que trabalho gráfico bonito :D. Fico feliz que as editoras brasileiras não estejam mais “cagando” para as capas. Muito feliz mesmo.

    Estou lendo um livro que talvez te interesse! É “O Aprendiz de Assassino”, de Robin Hobb. É publicado pela Leya e é o primeiro da “Saga do Assassino”. Digo isso porque o clima e a narração do livro me lembram bastante o George R. R. Martin ^^.

    Bom, gostei muito da resenha Gui :)

  13. Marijleite says:

    Gostei da resenha; mais um livro que quero ler.

  14. Taty says:

    Ah estou louca pra ler esse livro, já li outra obra do autor e gosto muito do estilo dele

    bjos


Deixe seu comentário