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Os 500 (Matthew Quirk)

23.09.2013

Livro de estreia de Matthew Quirk, Os 500 é um dos melhores “romances policiais” que já li – e espero que o autor, se mantiver o padrão de qualidade, não pare por aí.

A ideia é bastante simples (um cara se envolve com uma empresa de “consultoria” que controla, por meio de acordos e chantagens, os 500 homens mais poderosos de Washington), e a maneira como Quirk conta a história do protagonista, o anti-herói Mike Ford, conseguiu me prender desde o início.

Golpista e herói

Mike, pra começo de conversa, é um daqueles “bandidos legais”, pessoas extremamente carismáticas pelas quais torcemos mesmo (ou, talvez, especialmente) quando quebram as leis – mais ou menos como Dexter, só que sem assassinatos a sangue frio. Apesar de Mike ser uma espécie de prodígio, capaz de encontrar soluções inesperadas e se livrar de todo tipo de problema, é fácil se identificar com ele, porque nós provavelmente também nos sentiríamos meio “perdidos” se fôssemos forçados a conviver com “poderosos”.

A história é narrada em primeira pessoa, e o protagonista consegue criar um diálogo com o leitor, como se estivéssemos sentados em um bar tomando café ou cerveja enquanto ele nos conta como os figurões do Grupo Davies lhe deram tudo o que ele podia querer (dinheiro, conforto, uma namorada) em troca, basicamente, da sua alma.

Mike deixa escapar alguns palavrões, mas nada pesado. Contudo, como é um pouco “história de mafioso”, Os 500 é mais indicado para maiores de 16 anos.

O projeto gráfico é muito bem feito, como já é típico da Companhia, com boa diagramação e uma capa chamativa (que tem verniz localizado, inclusive, o que dá um belo acabamento). Os capítulos geralmente são meio longos, mas estão bem divididos em focos de ação, e o fato de não terem títulos aumenta o mistério.

Depois de uma certa parte, comecei a praticamente “devorar” o livro, e terminei a leitura vários dias antes do que tinha planejado. A única coisa que me incomodou foi uma “falha” da tradução, em que várias frases começam com “eu” (algo típico da língua inglesa) sem necessidade, como “eu fiz”, “eu vi”, “eu caminhei”, em que os verbos dispensam a indicação de que se trata de algo em primeira pessoa (há casos em que é necessário, como por exemplo quando o verbo é “disse”, que poderia ser tanto “eu disse” como “ele/ela disse”). Fora esse pequeno incômodo, não tenho do que reclamar.

A história tem várias reviravoltas, os personagens são todos muito interessantes e a narrativa é extremamente ágil.

Aperitivos

“Ele tinha me oferecido decência e eu retribuí com crime. Eu não passava de um trapaceiro. Estava no meu sangue. Qualquer chance que eu tivesse de levar uma vida honesta era um erro crasso, que logo seria corrigido.”

(p. 48)

“Não parecia certo. Talvez fosse só aquela relutância estranha quando lhe oferecem algo que você tanto quis, durante tanto tempo: você tem medo de aceitar quando já é seu. Ou talvez eu só quisesse as coisas claras. Eu queria aquela vida decente sem tons de cinza. E agora eu tinha descoberto que estava correndo na direção e algo que estava todo entremeado com a coisa de que eu estava fugindo.
‘Há algo que o senhor precisa saber. Sinceridade total. A respeito daquele problema…’
‘Eu sei tudo que preciso saber sobre você, Mike. Eu o contratei… bom, não por causa disso, mas por causa de como você pode aproveitar o fato.'”

(p. 52)

“Bem-vindo à capital, onde a diversão nunca começa. Durante o meu primeiro ano em Washington, acho que não daria para contar o número de vezes que ouvi, em alguma festa de fofoca e papo-furado, um fulano de colarinho branco me dizer: ‘Se você quer ter um amigo aqui, arrume um cachorro’, e então soltar uma gargalhada. A citação supostamente era de Truman. Sempre que eu a escutava, duas coisas ficavam na minha cabeça: primeiro, que gentilezas sociais estavam tão em falta em Washington que sua ausência tinha se transformado, de maneira perversa, em questão de orgulho. Segundo, que o sujeito com quem eu estava conversando achava engraçado anunciar que na primeira oportunidade ele me dispensaria sem pensar duas vezes.
Bom, pelo menos ele são honestos. É fácil conhecer pessoas na capital. Difícil é arrumar um bom amigo, já que o lugar está lotado de gente na casa dos vinte anos que trabalha com política, setor em que as habilidades essenciais são puxação de saco e charme fingido. Tuck, um dos alunos exemplares de Rhodes que trabalhava comigo no Grupo Davies, destacava-se entre os conhecidos que adquiri em Washington.”

(p. 63)

ISBN 9788565530330 Editora Paralela (Companhia das Letras) Páginas 308 Nota 5/5

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Por

Equipe Serendipity

  1. André Luiz says:

    Fiquei bastante interessado nesse livro, principalmente por gostar de livros policiais e thrillers. Está anotado e, em breve, pretendo comprá-lo.

    Sobre policiais, o Grupo Autêntica criou um selo, chamado Vertigo, exclusivamente para este estilo literário. Ficou sabendo? Os primeiros títulos do catálogo parecem ótimos, mas as capas seguindo o mesmo estilo gráfico em todos os livros me incomodoram um pouco.

    Finalizando, sugiro uma postagem com seus livros, seu quarto, seus objetos preferidos… Seria bacana ver outras influências sobre seu estilo.

    Abraço,
    André Luiz

  2. Adorei as fotos do post, ficaram lindas!
    Gui, você acha que esse livro seria um pouco parecido com Selvagens, do Don Winslow? Eu li, mas acho que não foi muito apropriado por causa da minha idade… ainda me sinto meio que traumatizada.
    Ah, você se importaria se eu perguntasse onde você comprou o seu Stan Marsh?

    Beijos!

    • Gui says:

      Não sei dizer, Laura! Ainda não li esse Selvagens… talvez dê uma olhada! Aliás, quem sabe no futuro você não deveria ler de novo? Talvez consiga melhorar o trauma ;)

      O boneco do Stan eu ganhei de natal há mais de 10 anos… não sei onde foi que compraram :( mas deve ser tranquilo de achar na internet (quem sabe até um modelo mais detalhado)

  3. Suelen says:

    adorei a resenha, gosto muito de romances policiais, um dos meu gêneros favoritoos :))

  4. Mayara says:

    Olá Guilherme!
    Adorei a critica do livro. Não tinha me deparado com suas resenhas ainda, pois faz pouco tempo que acompanho o Series of Serendipity e me agradou muito a forma como escreve. Deu pra perceber claramente os pontos favoráveis do livro, e a história me lembrou um pouco Advogado do Diabo hehe, não sei se foi uma associação bem sucedida, mas de qualquer forma me parece um bom livro. Estou com a lista bem cheia, mas talvez 500 (que diga se de passagem, é graficamente muito belo), entre na minha wishlist.

    Abraço.

  5. Pamella Soares says:

    Ah, eu preciso ler mais romances policiais!! Eu li um outro dia e gostei muito. O problema é que eu perco mais tempo em YA’s do que deveria, rs. Gui, sua resenha está ótima e me deixou curiosa! :D

  6. Barbara Sá says:

    Apesar de não ser o meu tipo de leitura favorito eu curti a história.
    A escrita do Matthew é ótima, e ao que parece ele é um autor bem volátil.
    Gostei disso. Adorei sua resenha :)

    Beijocas,
    http://www.segredosentreamigas.com.br

  7. Adorei, Gui…tanto a resenha como as fotos….você sabe que eu adoro romances policiais e esse quero ler logo! O enredo parace muito interessante, vou ler e depois te digo o que achei

    Beijinhos no coração

  8. Josiene says:

    MATHEW QUIRK está com tudo!
    Linda as fotos.

  9. Karolayne Negreiros says:

    Amo as resenhas que o Gui faz , são muito inteligentes , e as informações ficam bem claras , e organizadas ! Parabéns Gui :))

  10. Marijleite says:

    Eu posso até negar de vez em quando, mas amo um romance policial com muito suspense e ação, não tem jeito (mas essas histórias tem que ser bem escritas, senão as reviravoltas da história podem ficar chatas).
    Achei esse livro bem interessante; se não tem muitos assassinatos a sangue frio já me agrada (não gosto de violência, prefiro inteligência). Ótima resenha!
    http://www.petalasdeliberdade.blogpost.com.br

    • Gui says:

      Esse (menos violência e mais inteligência) é um dos pontos fortes de Os 500, Mari: tanto o Mike como os chefes ele sabem que não adianta sair por aí eliminando alvos, e que é melhor descobrir o “preço” de cada um. Você se impressiona com a maneira como eles contornam os problemas que aparecem!
      Fico feliz que tenha gostado da resenha, e espero que goste do livro também! :D

  11. Nayara says:

    Ual,amei,necessito ler esse livro!! Muito bom o post Gui,parabéns!!!!

  12. Ei ! Leia Memórias de um amigo Imaginário, do mesmo autor ! É muito fofo #ficaadica ;)
    Beijinhos *-*

  13. Pode me julgar: evitei esse livro na livraria porque sou desatenta o suficiente pra ter lido QUICK ao invés de QUIRK e achar que era o livro do cara O Lado Bom da Vida (que, como eu te falei esses tempos no twitter, não gostei nada :/ ). Mas daí vendo tua resenha (pq eu demoro, mas vejo! hehee) curti a história, mesmo não sendo fã de policiais (eu tive meus momentos, tipo com o novo da JK Rowling). Quem sabe na próxima visita a livraria eu não evite mais, hahaha.

    Beijo!

    Raquel

  14. Dani Araujo says:

    Olá Gui!

    Eu estava sentindo falta de livros de romance policial, e você ter dito que esse é um livro de leitura ágil me ganhou assim como o do Lemony Snicket que li depois da sua indicação e gostei. Ultimamente tenho preferido leituras mais ágeis porque não tenho tido muito tempo e acabo ou desistindo da leitura ou demorando muito…

    Muito obrigada pelas indicações!!!

    Beijo


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