Companhia das Letras

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11. Fev. 2015

Caninos em Família (Kevin Wilson)

Arquivado em: Livros são amor

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Quando vi esse (então) lançamento da Companhia das Letras, resolvi ignorar o velho e surrado conselho “não julgue um livro pela capa”: gostei dela, achei o título curioso, e pedi um exemplar, mesmo sem ter lido direito a sinopse.

Valeu cada minuto de leitura.

Saber o mínimo possível sobre a história me ajudou a focar no estilo do autor e na vontade de descobrir logo o que acontece na sequência – por isso não vou dar muitos detalhes do enredo aqui, e, se alguém quiser mais detalhes, é só dar uma olhada na sinopse publicada pela editora.

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Vidas de arte

Em resumo, o livro conta a história da família Caninus: um casal (Caleb e Camille) e dois filhos (Annie e Buster).

Excêntricos, Caleb e Camille vivem para a arte, adoram o inusitado e o caos que suas “apresentações” (feitas fora dos palcos e das telas, sem que o público saiba do que se trata) provocam. De início, faziam tudo sozinhos; quando os filhos vieram, acabaram entrando no turbilhão artístico.

Depois de adultos, Annie e Buster seguiram adiante com suas vidas (ela virou atriz profissional, e ele, jornalista e escritor), mas, de alguma forma, foram levados a morar novamente com os pais, que nunca pararam com seus… “happenings artísticos”.

Sem mais detalhes, adianto: os personagens são, cada um a sua maneira, extremamente carismáticos, e é difícil não se importar com eles, com suas aspirações e com os problemas que vão aparecendo em suas vidas. O autor, que consegue fazer rir sem forçar a barra, como se estivesse sentado com você em uma mesa de bar, contando histórias, deu um jeito de criar algo memorável – da mesma forma que Caleb e Camille fazem.

O livro alterna entre passado e presente, narrando apresentações dos Caninus e o que eles estão fazendo agora (mesmo excêntricos, são tão bem construídos que poderiam muito bem existir de verdade, fora do romance). Às vezes a quebra na narrativa pode cansar ou frustrar o leitor, que fica curioso pra saber como a trama se desenrola, mas ao mesmo tempo é um elemento que torna o livro especial.

Como já é de praxe, não preciso falar que o projeto gráfico é excelente… mas falo mesmo assim (rá!), por garantia: ótima diagramação, verniz localizado de forma “exótica” na capa (surpreendente, como a própria Família Caninus), papel e fonte que favorecem a leitura… E uma tradução muito bem feita – não comparei com o original em inglês, mas senti que o texto fluia muito bem.

Teve dias em que eu ficava frustrado por não ter tempo de ler, e mesmo alguns minutos, que só permitiam apreciar poucas páginas, eram muito bem vindos.

O final é inesperado e a única frustração foi a de, bem… o livro ter acabado – aquela contradição que os leitores vivem diante de um bom livro (querem chegar ao fim, mas não querem que o livro acabe).

Parece que vão lançar um filme baseado em Caninos em Família. Antes disso, claro, recomendo fortemente que vocês leiam o livro, e torço pra que se divirtam tanto quanto eu!

Em tempo: o livro tem alguns palavrões, que acabam deixando a narrativa mais “natural”, mas podem chocar quem não está acostumado.

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ISBN 9788535924084 Editora Companhia das Letras Nota 5/5 Páginas 386

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Aperitivos

“Buster estava no meio de uma área descampada, no Nebraska, e o frio era tão intenso que a cerveja congelava nas latinhas que ele entornava goela abaixo. A seu redor viam-se alguns veteranos chegados do Iraque fazia um ano. Eram jovens, exibiam uma alegria estranha, e sua invencibilidade ficara cientificamente comprovada depois de várias temporadas servindo o Exército no Oriente Médio. Dispostos sobre tiras de lona plástica, viam-se alguns artefatos que guardavam uma semelhança cômica com canhões – grandalhões e desajeitados e insinuando toda sorte de destruição. (…)”

(p. 29)

“Estava na hora de tirar férias, por isso cada um deles tinha a sua carteira de identidade falsa. Os Caninus haviam sido contemplados com uma prestigiosa subvenção cultural, mais de trezendos mil dólares, e a ideia era celebrar: as identidades falsas espalhadas sobre a mesa. Caleb e Camille seriam Ronnie Payne e Grace Truman. As crianças puderam escolher seus próprios nomes. Annie seria Clara Bow; Buster, Nick Fury. Como recompensa pela encenação, os pais tinham prometido a Annie e Buster que não haveria intervenções artísticas durante os quatro dias que eles passariam na praia, nada além de uma família normal tostando sob o sol, comprando quinquilharias feitas de conchinhas do mar e se empaturrando com petiscos fritos em baldes de óleo ou embebidos em chocolate ou ambas as coisas.”

(p. 50)

“O restante do voo foi marcado por um mal-estar tão grande, um clima tão tenso que, se o avião caísse, era bem possível que os passageiros comemorassem a oportunidade de se esquivar do constrangimento com o acontecido.”

(p. 57)

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30. Jan. 2015

Ilha do Medo (Dennis Lehane)

Arquivado em: Livros são amor

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Depois de terminar o excelente Os Filhos da Noite, eu TINHA que ler outra obra do autor. Sem pensar demais, pedi à Companhia das Letras o Ilha do Medo (que antigamente era publicado como Paciente 67, mas que hoje leva o título da adaptação para o cinema).

Li.

Adorei.

E agora vou contar o porquê.

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Nuvem de suspeitas

Em Ilha do Medo, o leitor acompanha Teddy Daniels, um xerife encarregado de investigar a fuga de uma paciente do Hospital Psiquiátrico Ashecliffe, onde são tratados criminosos perigosos – a própria Rachel foi acusada de matar seus três filhos pequenos, numa espécie de surto psicótico.

Teddy conta apenas com um aliado, seu parceiro de investigação, Chuck Aule, e percebe que, se quiser resolver o caso, vai ter que passar por uma série de mentiras orquestradas pela administração do hospital.

De início, a trama é simples, uma investigação policial que poderia caber em um episódio de CSI ou outra série do tipo, mas aos poucos o leitor começa, da mesma forma que Teddy, a ficar intoxicado com o ambiente da ilha, com seus pacientes perigosos e funcionários que levantam, mesmo sem querer, todo tipo de suspeita.

Lehane não tem a menor dificuldade em prender o leitor, pois criou dois protagonistas envolventes (Teddy é durão, mas carrega feridas, e você torce o tempo todo por ele; já Chuck é espirituoso, leal, e, como Teddy aponta mais de uma vez, inspira confiança) e tem um estilo narrativo em que cada parágrafo cumpre seu papel, seja avançando diretamente a história, seja construindo seus personagens.

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Nem preciso dizer (mas digo assim mesmo hehehe) que a diagramação é excelente, com fontes e espaçamentos que deixam a leitura confortável. A capa, apesar de ser basicamente o cartaz do filme baseado no livro (não gosto muito quando fazem isso), é bonita, e combina com a trama. Senti um pouco de falta das “orelhas” para proteger o livro, mas isso não chegou a atrapalhar a leitura. A tradução também é excelente.

Ilha do Medo, infelizmente, é um alvo fácil pra quem gosta de soltar spoilers, porque tem revelações surpreendentes, e ouvir alguém contar estraga (pelo menos pra mim) boa parte da experiência. Se você conseguir ler esse livro (ou ver o filme) com “pureza”, sabendo só o básico do enredo, melhor. Se não… bom, ainda é um material excelente!

Além do filme, adaptaram a história para uma graphic novel – que pretendo ler um dia, com certeza.

E vocês? Já leram/assistiram Ilha do Medo? Gostam desse tipo de história, com suspense, drama etc.? Curtem “romance policial”? Digam nos comentários! :D

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ISBN 9788535916256 Editora Companhia das Letras Nota 5/5 Páginas 344

Aperitivos

“Dolores morrera havia dois anos, mas revivia à noite, nos sonhos dele. E às vezes, no alvorecer, Teddy passava minutos a fio pensando que ela estava na cozinha ou tomando café na sacada do apartamento em Buttonwood. Era uma cruel ilusão armada por sua mente, claro, mas havia muito tempo que Teddy se conformara com a lógica desse acontecimento – afinal de contas, acordar era como nascer. A gente emerge sem história. Depois, entre um piscar de olhos e um bocejo, reorganiza o passado, dispondo os fragmentos em ordem cronológica, reunindo forças para enfrentar o ambiente.”

(p. 29)

“O dr. Cawley era muito magro, quase esquelético. Não chegava a se parecer com os sacos de ossos e cartilagens que Teddy vira em Dachau, na Alemanha, mas com certeza estava precisando de umas boas refeições. Seus olhinhos pretos, muito fundos, emanavam uma atmosfera sombria que parecia se espalhar todo o rosto. Cawley tinha a pele crivada de cicatrizes de acne, e as faces tão escaveiradas que pareciam chupadas de dentro do corpo. Os lábios e o nariz eram tão finos como tudo o mais; e o queixo, exageradamente recuado, parecia não existir. O pouco que restava dos cabelos era preto como os olhos e as olheiras.

Não obstante, o dr. Cawley tinha um sorriso explosivo, animado, que transbordava uma confiança capaz de iluminar a íris – com esse sorriso ele os brindou naquele momento, enquanto dava a volta à escrivaninha para ir, de mão estendida, cumprimentá-los.

‘Xerife Daniels e xerife Aule’, ele disse. ‘Alegra-me que tenham conseguido vir tão prontamente.’
Sua mão, seca e lisa como a de uma estátua, apertou a de Teddy com tanta força que este sentiu a pressão subir pelo antebraço. De olhos brilhantes, Cawley o fitou por um instante, como a dizer: ‘Não esperava por isso, não é?’, e voltou-se em seguida para Chuck.”

(p. 44)

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