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15. Mai. 2014

Odd e os Gigantes de Gelo (Neil Gaiman e Brett Helquist)

Arquivado em: Livros são amor

Depois de corrigir um grande defeito que eu tinha e ler Fortunatelly the Milk, assumi uma missão: ler todos os livros escritos pelo Neil Gaiman (ainda estou pensando se dou conta de incluir as HQs também… veremos!). Feito isso, meu primeiro passo foi ler o fantástico Odd e os Gigantes de Gelo.

Pra começo de conversa, adorei o projeto gráfico: a ilustrações, as cores e a maneira como foi diagramado transmitem a beleza e a leveza da história – escrita especialmente para o Dia Mundial do Livro de 2009 (ou 2008, não tenho certeza).

Como o livro é curto, não vou contar muitos detalhes da história. Basta saber que Odd é um menino que vive em um vilarejo viking junto com a mãe, o padrasto e os irmãos. Faz muito frio, mas o povo consegue dar conta de recado. Porém, ao contrário do que acontece todos os anos, desta vez o inverno está se prolongando, e Odd sai do vilarejo para se afastar do padrasto e enfrentar o frio à sua maneira. O resto… vocês terão que ler para descobrir!

O humor e a criatividade do Neil Gaiman fazem com que fique difícil largar o livro, mas eu procurei ler aos poucos, pra saboreá-lo.

É uma leitura extremamente agradável, com uma narrativa imprevisível, e eu me senti muito bem quando acompanhava a trajetória de Odd e dos três animais (que aparecem na capa, então falar deles não é spoiler, ok? Hehehe!).

ISBN 9788579800764 Editora Rocco Nota 5/5 Páginas 128

Aperitivos

“Havia um menino chamado Odd, e não havia nada de estranho ou incomum nisso, não naquele tempo e lugar. Ao contrário de hoje, em que Odd é uma palavra inglesa para “esquisito”, naquela época, Odd significava a ponta de uma lâmina, e era um nome que trazia sorte.
Porém, ele era estranho. Pelo menos era o que os outros habitantes do vilarejo achavam. Mas se havia algo que ele não podia ser considerado era sortudo.”

(p. 9)

“Odd amava a primavera, quando as cachoeiras começavam a descer pelos vales e a terra da madeira era coberta por flores. Ele gostava do verão, quando as primeiras frutas começavam a amadurecer, e do outono, quando havia nozes e pequenas maçãs. Odd não gostava nem um pouco do inverno, quando os moradores passavam todo o tempo que podiam na sede do vilarejo, consumindo raízes comestíveis e carne salgada. (…)
Por volta de março, a pior parte do inverno já tinha passado. A neve derretia, os rios começavam a correr e o mundo despertava em si mesmo novamente.
Não esse ano.”

(ps. 16-17)

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20. Jun. 2013

O Espadachim de Carvão (Affonso Solano)

Arquivado em: Livros são amor

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Tem gente que acha que autores brasileiros só levam jeito para escrever crônicas ou romances, como se o gênero Fantasia fosse exclusividade de quem é de fora do Brasil. Affonso Solano prova o contrário, do mesmo modo que Raphael Draccon, Eduardo Sphor, Leonel Caldela e outros autores nacionais que exploram o gênero com maestria – aliás, teremos resenha de livros deles também, aguardem!

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O cartão de visitas de O Espadachim de Carvão é um belo projeto gráfico, que mantém um padrão que observo na editora Fantasy Casa da Palavra: capa bonita, boa diagramação e uma identidade visual que conversa com a obra. No meu caso, outro ponto que aumentou as expectativas em relação ao livro foi o fato de eu acompanhar o autor na mídia Podcast (Rapaduracast, Matando Robôs Gigantes e Isso é Muito Tarantino) – quem escuta podcasts sabe que, com o passar do tempo, você se sente próximo dos participantes, como se estivesse presente nas conversas e os conhecesse pessoalmente. Deixo aqui a recomendação desses programas.

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Vida e obra de Adapak

A história se passa em Kurgala, um mundo que, antes da chegada dos Dingirï, era um mar interminável. Essas quatro criaturas foram responsáveis por dar vida a Kurgala, criando continentes, plantas e todo tipo de espécie que passou a habitar aquele mundo. Adapak, o “espadachim de carvão”, é filho de um Dingirï, e por alguma razão está sendo perseguido.

Já no primeiro capítulo o leitor acompanha uma cena de ação, em que o protagonista precisa fugir de perseguidores que têm motivações obscuras. O estilo de Affonso (como ouvinte, tomo a liberdade de tratá-lo como amigo e chamá-lo pelo primeiro nome) é ágil, e descreve o necessário para ambientar o leitor, seja quanto ao cenário, seja quanto ao estado de espírito do protagonista – a história é narrada em terceira pessoa, mas o leitor tem acesso aos pensamentos e emoções de Adapak.

No segundo, o cenário muda, e deixamos o presente para fazer uma viagem à infância do herói… uma estratégia interessante, mas que, confesso, me deixou confuso. Gosto de narrativas com mais de um foco, mas essa transição feita sem aviso me fez pensar “peraí, o cenário mudou… do nada?”. No terceiro capítulo, você descobre o padrão: eles se alternam entre presente e passado, para que o leitor possa conhecer a história de Adapak sem deixar de acompanhar sua situação “presente”. Acho que um indicativo de tempo no começo de cada capítulo teria evitado a confusão (uma estratégia usada nos livros da série Assassin’s Creed, por exemplo, para sinalizar “saltos temporais”).

Ao olhar passado e presente, você descobre por que Adapak é chamado de “espadachim de carvão”, como aprendeu a lutar (os “Círculos” são uma técnica fantástica, aliás) e por que tantas criaturas querem matá-lo.

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Admirável mundo que era mar

Pelo visto, Affonso não mediu esforços na hora de idealizar Kurgala: de certa forma, como outros leitores comentaram em suas resenhas, lembra o universo de Star Wars, rico em espécies, materiais e ambientes. Há até um sistema de medidas próprio, que marca “ciclos” ao invés de anos e usa “cascos” como unidade de medida; além disso, meses têm nomes exóticos (como Abzuku Aräh) e dias são chamados de “luas”.

Essa riqueza, contudo, vem com um preço: o leitor pode levar um tempo até se ambientar, especialmente quando se trata de descrições de espécies – que podem ter vários olhos, vários braços, tentáculos ao invés de pernas, cabeças em formatos estranhos, pele transparente, escamas. Os nomes também exigem um esforço de memorização (temos ïnarannianos, mellat e mau’lin, por exemplo), mas logo você se vê imerso em Kurgala.

Devo confessar que senti falta de um glossário de espécies e de um mapa mostrando as regiões em que a história se desenrola, mas não acho que a ausência desses materiais comprometa a experiência.

Por falar nisso, um elemento que ajuda na imersão são as ilustrações (feitas pelo autor) no início de cada capítulo, que mostram um elemento (personagem ou objeto) que aparece no capítulo em questão.

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Um viajante como nós

Adapak, como fica claro já nos primeiros capítulos, conhece Kurgala graças a livros e enciclopédias, mas não tem vivência. Nesse ponto, ele se parece com o leitor, que irá acompanhá-lo e, sem o conhecimento enciclopédico a respeito de criaturas e lugares, vai se surpreender tanto quanto ele (isso ajuda a se identificar com o protagonista, algo que considero essencial em uma boa narrativa).

Adapak é relativamente jovem (19 ciclos de idade) e prefere acreditar nas boas intenções dos outros, uma postura bonita, mas arriscada, que o coloca em situações ruins… e provocou empatia em mim, porque tenho esse mesmo “problema”, uma certa falta de malícia, que acaba me surpreendendo às vezes. Acho que Affonso fez um ótimo trabalho na criação do personagem, e eu sinto que, se Adapak existisse fora dos livros, seríamos amigos – e aposto que a maioria de vocês vai sentir o mesmo. De vez em quando ele fala um palavrão, o que o deixa mais, digamos, “humano”.

Os outros personagens (como o amigo e mentor Barutir, a amada T’arish e o mestre Telalec) também são cativantes, a meu ver, e o relacionamento deles com o protagonista fortalecem a narrativa. Algo que eu achei especialmente tocante foi a relação de Adapak e seu pai, mas não vou entrar em detalhes, para não estragar surpresas.

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Estrutura

Os capítulos são relativamente curtos, e a organização dos parágrafos segue um padrão interessante, que destaca certos pensamentos ou trechos para aumentar seu impacto na história. O papel levemente amarelado e a fonte deixam a leitura confortável. Infelizmente, há pequenos erros que acabaram passando despercebidos pela revisão, mas isso não tira o mérito do livro.

Por fim, quero destacar a proximidade que Affonso conseguiu com seus leitores (e, também, com seus ouvintes): ele acompanha e responde mensagens no Twitter e no Facebook, algo que eu gostaria que mais autores pudessem fazer.

Em suma, recomendo, tanto para quem já gosta do gênero Fantasia como para quem ainda não ingressou nesse tipo de leitura. O Espadachim de Carvão é uma leitura agradável (especialmente depois que você se ambienta em Kurgala) e, sem ser pesada, toca em temas complexos como relações pessoais, discriminação, fé e moral.

O final é surpreendente… mas, é claro, não vou estragar a surpresa.

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Aperitivos

“No pescoço da criatura pendia um cordão de couro simples, cuja ponta segurava uma espécie de cristal esverdeado em forma de meia-lua. O pequeno artefato parecia ter sido amarrado de forma improvisada, com fios puídos cruzando entre si e ocultando parte da superfície.

Aquela era uma relíquia Dingirï.

Adapak estremeceu. Aquilo era ruim, muito ruim. Ele teria que neutralizar o guandiriano tatuado antes dos outros se quisesse aumentar suas chances de sobrevivência.

Pense.

Atrás do espadachim os ataques às paredes recomeçaram. Seu coração ecoava a contagem regressiva do confronto”.

(p. 10 e 11)

“Os camponeses se entreolharam. O obeso deu de ombros e o embuste de Adapak se desfez. O mais velho deu um passo à frente.
– Não sabemos o que você é, olhos brancos, mas não é quem disse que era, então sabemos que mentiu… E se mentiu é porque está procurando problemas.
– Não, eu… Eu não quero problemas, só não quero… Só não quero que a machuquem.”

(p. 22)

Spock resolveu mais uma vez participar das fotos da resenha:

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ISBN: 9788577343348 Editora: Fantasy Casa da Palavra Páginas: 256 Nota: 4/5