LIVROS

“Quem poderia ser a uma hora dessas?” (Lemony Snicket)

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Saudações, leitores e leitoras! Não vou gastar muito espaço explicando por que “sumi” do blog nesses últimos meses (basicamente, ando trabalhando em diversos projetos de texto e em alguns de ilustração); ao invés disso, vou direto ao ponto: esse ano, a Mel fez uma parceria com a Companhia das Letras e, a cada mês, eles nos mandam livros para fazermos resenha. Minha primeira escolha foi Quem poderia ser a uma hora dessas?, do Lemony Snicket, e já adianto que gostei muito – logo vocês saberão o porquê.

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Mistério ilustrado

Já de início, duas coisas chamam a atenção: o título estranho e o belo projeto gráfico. Quem poderia ser a uma hora dessas? é o primeiro de quatro livros da série Só perguntas erradas e, pelo menos pra mim, a curiosidade a respeito das tais “perguntas erradas” foi um bom incentivo para começar a leitura.

Na orelha e na quarta capa (parte de trás do livro) há algumas, como “quero saber o que se passa em uma cidade à beira-mar que não está mais na beira do mar?” ou “de onde vem esse grito?” e “estou interessado em conhecer a história do roubo de um objeto que não foi roubado?”.

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“Quem poderia ser a uma hora dessas?” foi ilustrado por Seth, que, de acordo com sua “mini-biografia” na orelha do livro, “já retratou muitas circunstâncias duvidosas e personagens obscuros ao longo de sua vida”. Simples, bem feitas e curiosas, elas não apenas ajudam a deixar o livro bonito, como também te dão vontade de continuar a leitura, porque ao longo dela você começa a entender o que cada ilustração da capa representa (a estátua no canto superior direito ou o telefone fora do gancho na quarta capa, por exemplo). No começo de cada capítulo, desenhos dão a cara a personagens e revelam partes do cenário em que a história se passa.

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Mesmo com todos esses méritos, porém, as ilustrações têm um ponto fraco: podem fazer o livro parecer mais “infantil” do que “jovem” (tanto que algumas livrarias o colocam na categoria “infantil”, algo que considero um engano, como vocês verão daqui a alguns parágrafos). Isso não chega a tirar o mérito do livro mas, já que é algo não intencional, considero um problema.

Pra encerrar a análise da parte gráfica e partir para a história: a diagramação é muito boa – margens, fonte, tamanho da letras, integração entre texto e ilustrações etc. Como estou lendo as edições de bolso das Crônicas de Gelo e Fogo (que logo ganharão sua resenha aqui no blog), que têm um texto mais “compactado”, achei o entrelinha muito grande, mas isso provavelmente não vai incomodar ninguém – não chegou a atrapalhar a leitura, apenas precisei de algum tempo pra me acostumar. Junto com o livro, a Companhia das Letras mandou um adesivo de Manchado-Pelo-Mar, a cidade fictícia em que a história se passa – valeu, pessoal!

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Mistério com humor

Esse foi o primeiro livro que li do Lemony Snicket, muito conhecido pelo Desventuras em Série. A história é contada em primeira pessoa pelo próprio Snicket, o que eu achei um pouco confuso – afinal, “Lemony Snicket” não é apenas um pseudônimo, mas um autor “de verdade”, e os outros livros dele, até onde sei, não têm relação uns com os outros.

A história começa na Casa de Chá e Papelaria Cicuta, “o tipo de lugar onde o chão parece estar sempre sujo, mesmo quando está limpo”, nas palavras do protagonista/autor/narrador. Snicket ia pegar um trem na estação que fica logo em frente à Casa, mas ao invés disso segue instruções que recebeu através de um bilhete, saindo pela janela do banheiro e pegando carona em um esportivo (“uma maneira afetada de falar ‘carro'”) verde estacionado perto de um beco. A motorista, S Theodora Markson (o significado do “S” é um dos mistérios do livro, vale dizer), é tutora de Snicket, e juntos eles vão investigar um suposto roubo em uma cidade que fica no meio do nada, chamada Manchado-Pelo-Mar.

Gostei do estilo do autor, bem humorado e sem muita enrolação. É fácil se identificar com o protagonista, que, apesar de ser uma criança (ele tem 12 anos), se comporta como um adulto – sem ser uma “criança prodígio”, felizmente. Se você estivesse no lugar dele, provavelmente ficaria intrigado, incomodado ou aliviado pelos mesmos motivos que ele.

Confesso que achei a tutora meio chata, porque ela age como se fosse competente, quando na verdade não é. A mania dela de explicar o significado das expressões que usa (e que o próprio Snicket acaba incorporando de vez em quando) é um elemento divertido, mas não compensa a chatice dela. Os outros personagens são mais legais, mesmo aqueles que só aparecem pra atrapalhar.

O estilo de Snicket me lembrou o de Jeff Lindsay, autor da série Dexter (recomendo tanto os livros como série de TV, inclusive), que também escreve em primeira pessoa (mas como Dexter, não como ele mesmo) e inclui comentários e pensamentos sarcásticos ou espirituosos. Por fim, os capítulos são relativamente curtos, o que ajuda a deixar a leitura mais ágil.

“Quem poderia ser a uma hora dessas” prendeu minha atenção, só que mais pelo estilo do autor e pelo carisma dos personagens do que pela história em si – o tal “roubo de um objeto que não foi roubado”. Talvez você se interesse pelo mistério, talvez não, mas dificilmente não vai gostar do livro, em especial do protagonista que, como Dexter, consegue fazer você rir pelo menos uma vez a cada duas páginas (ou até com mais frequência). Recomendo e digo que estou ansioso pra ler o próximo da série.

Aperitivos:

“– Eu sou S. Theodora Markson – ela disse.
– Eu sou Lemony Snicket – respondi e entreguei-lhe um envelope que trazia no bolso. Dentro havia o que poderíamos chamar de carta de apresentação, alguns parágrafos me descrevendo como excelente leitor, bom cozinheiro, músico medíocre e péssimo lutador. Tinha recebido instruções para não ler minha carta de apresentação, e acabei perdendo um tempo abrindo e depois fechando o envelope novamente
– Sei quem você é – ela disse, jogando o envelope no banco traseiro. Ela olhava pelo para-brisa como se já estivéssemos em movimento. – Houve uma mudança nos planos. Estamos com muita pressa. A situação é mais complicada do que você imagina ou do que poderia explicar diante da atual circunstância.
– Diante da atual circunstância – repeti. – Você quer dizer ‘agora’?
– Claro que é isso que eu quero dizer.
– Se estamos com pressa, por que você não diz simplesmente ‘agora’?” (p. 21)

“– Não gosto de sua reticência – disse Theodora, quebrando meu silêncio amargo. – Reticência é uma palavra que quer dizer que você não está falando o suficiente. Diga alguma coisa, Snicket.
– Já chegamos? – perguntei, esperançoso, muito embora todos saibamos que essa é uma pergunta que não se deve fazer ao motorista de um carro. Então tentei um ‘para onde estamos indo?’, mas Theodora não respondeu imediatamente. Ela mordia os lábios, como se também estivesse decepcionada com alguma coisa, então tentei outra pergunta que achei que ela pudesse gostar mais. – O que o S quer dizer?
– Só Deus sabe – ela respondeu, e era verdade.” (p. 29)

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32 Comentários + Comentários pelo Facebook
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  • Walkyne Lorrayna

    Desde que vi esse livro tive vontade de lê-lo. Adorei a resenha ( minha vontade de lê-lo está aumentando) espero poder comprar o livro logo.

  • Marijleite

    Gostei da resenha, gostei de saber mais sobre esse livro; parece um daqueles livros que li na escola e onde cada detalhe da capa, cada palavra ia me deixando mais e mais curiosa; e se faz o leitor rir, então eu vou gostar bastante quando ler.

  • Ana Lu

    Ei Guilherme! É a Analu, que entrevistou a Mel lá no NY Café aquela vez, hehe :)
    Eu não li esse ainda, mas li a série toda dos Desventuras em série, e indico! Realmente a narrativa do autor sobressai à história. Eu chorava de rir com o jeito dele contar as coisas, apesar da história ser macabra.. Leia e depois conte!
    Beijo!

  • meág

    eu amo os livros do daniel handler (lemony snicket) <3 então, o negócio é assim; lemony snicket é sim um pseudônimo do autor, que ele usava substituindo o próprio nome na cadeia de correios. o pseudônimo virou uma brochou em brincadeira sim, mas só quando os amigos de dan começaram a encomendar pizza em seu "nome". [entre os colchetes tem um pequeno spoiler sobre desventuras em série, pule quem quiser: na série desventuras em série lemony snicket também é um personagem. não vou entrar em mais detalhes]. gostei da série – parece super criativo, à la snicket – e não conhecia a série. tava até procurando livros novos desse autor, acho a escrita dele uma das melhores; leve, criativa e concisa. enfim, é isso. gostei da resenha e da "seção" aperitivos.

  • TheFosterJamEditorial

    Que legal o guilherme de souza sempre foi tão esperto desse jeito??

  • Camila Gerarde

    Adorei a resenha, já tinha visto este livro e ele não me interessou, mas sua resenha me deixou curiosa :)
    É um livro bonito, o adesivo é bem criativoi, e os aperitivos, são ótimos para termos um gostinho do livro, haha! Gostei muito.
    Vou colocar na lista de quero ler.

  • Amanda Mag

    Huuumm…ta ai um livro que quero ler.Amei sua resenha e me encantei com o livro,achei a capa muito bonita ,a fonte me parece mto boa tbm. Enfim,esta ai um livro que irei ler esse ano. :D

  • Laura Rodrigues

    O livro é lindo e a história me fez ficar com vontade de ler, coloquei na wishlist já. *-*

  • karol

    Tenho que ler esse livro! Não sabia que o Lemony tinha escruito outros além do Desventuras *o*. DEFINITIVAMENTE PRECISO! Obrigada pela dica ^^.

  • hayley

    ah, ja tinha ouvido falar sobre esse livro que chuchu aparecer por aqui <3, tava supercuriosa adorei a review!

  • Amauri

    Nossa, super gostei e já quero o livro o mais rápido possível hahaha, desejando o adesivo do “manchado-pelo-mar”

  • Elurdiane Andrade

    Adorei a resenha,faz tempo que não leio livros com ilustração… esse parece muito interessante,
    fiquei super curiosa e quero ler esse o mais rápido que eu puder.
    :)

  • Iris

    O Snicket é pseudônimo para Daniel Handler, de “Por isso que a gente acabou” :) Ele tem uma personalidade toda exclusiva pra escrever como Snicket e acho a ideia o máximo (depois dá uma googlada, pq é bem legal mesmo como o Handler trabalha sua imagem como Snicket e não curte misturar as personas). O Snicket é um autor-personagem, é muito legal de analisar. Só li Desventuras até a metade, é muito legal, pretendo terminar a série em breve :)

    • Melina

      Sou louca pra ler “Por isso que a gente acabou” <3

  • Natália Puga

    Sou doida pra ler algo do Snicket (e não do do Daniel Handler, olha que loucura?) por essa coisa de personagem-autor que nem a Iris disse aí em cima! Li o primeiro livro de desventuras e achei tão legal, lúdico (tenho dificuldade em achar uma palavra) e encantador… sem falar que esse projeto gráfico é de fazer CHORAR né?

  • Natália Puga

    Chorar de tão belo, vale dizer hahaha :)

  • Natália Takeshita

    Estou lendo esse livro, comecei ontem e estou adorando.
    Adorei a resenha, apesar de ainda não ter terminado o livro concordo com tudo :)
    Lemony é só amor <3

  • Adriana Diah

    Adorei, vou comprar para ler. Que massa

  • Talita M.

    Poxa! Gostei do livro. Ainda não tinha ouvido falar dele, mas a história me interessou bastante! Vou procurar ler!

  • Gigi

    Sou apaixonadona por ele. Lia Desventuras quando era criança sem parar. Era um livro por semana e mais 3 semanas sofrendo até o próximo. Vou comprar esse! (ou roubar de vocês, quem sabe). Amei a resenha, Gui!

    Bisous,
    Gigi

  • Ana Luisa Mele Polito

    Meu deuuuuuuuuuuus Mel do céu. Achei que só eu conhecia esse livro hahaha! É um dos meus favoritos. Primeiro, porque os personagens são bem despojados. Segundo, a capa. Que por exemplo. Eu sempre leio um capítulo antes de dormir e sempre que acabava de ler e fechava o livro, identificava uma imagem da capa com a do capítulo que eu estava lendo!! É um livro maravilhoso, que te leva para outro mundo e faz você se sentir um detetive hahaha!
    Beijos Mel amei a resenha <3

    • Melina

      Quem fez a resenha foi o Gui, viu? <3

      • Ana Luisa Mele Polito

        Meu deuuuuus! Me desculpe Gui! Esqueci completamente que não é só a Mel que posta! Ai que vergonha! Vou tomar mais cuidado e olhar quem postou no final do post! hahaha Beijoos <3

        • Melina

          Hahaha não se preocupa, chuchu :)
          O Gui não ficou chateado (eu acho haha :P)
          :*

  • luiza brando

    os livros do lemony snicket são sempre mal interpretados pelas livrarias. na época de desventuras em série eu estava sempre na área dos infantis catando os próximos volumes no meio de criancinhas se perguntando o que eu estava fazendo ali também.
    já leu a autobiografia não autorizada dele? é muito legal e tem uma capa falsa para fingir que o livro se chama “a pândega do pônei”! hahah o meu sempre fica com essa capa.

    • Mimis

      O meu também! Até porque, “A Pandêga do Pônei” combina com a lombada das D.E.S. :) Pena que tenho as minhas há tanto tempo que já desbotaram e estão velhiiiinhas. Dia desses meu namorado ajeitou os livros de D.E.S. por ordem cromática, heheh

  • Danielle

    Quase chorei quando vi que tinha resenha desse livro aqui. Comprei esse livro recentemente, e me apaixonei por ele. Nao pela historia ( que ainda nao li), mas pelo livro em si mesmo. lindooooo.
    Mas se a historia me deixar metade feliz do que fiquei com Desventuras em serie, ja to muito satisfeita (:

  • Bruna Gava

    Poxa, quero ler esse livro, adoro mistérios e humor. E adorei a resenha :)

  • Ju

    Esse eu ainda não li, não que tenha faltado vontade. Mas de Lemony Snicket já li Desventuras em Série, Auto biografia Não Autorizada, Raiz Forte: Verdades Amargas que você não pode evitar (altamente recomendável, amei esse) e O Compositor está morto (o mais recente, uma graça) :)

  • Julia

    Pode ter certeza que se tivesse lido desventuras em séries antes, esse livro teria sido ainda melhor! O Lemony faz parte da história dos órfãos e é muito legal ver como fatos de seu passado se misturam com a historia dos irmãos. Se decidir ler desventuras (que eu super recomendo!) já fique sabendo que personagens como a tutora do Lemony são comuns em seus livros o que também me irritou um pouco durante a leitura hahahah
    ps:fiquei com muita inveja do seu adesivo, amo esse livro e fiquei desejando um!

  • Quando você a viu pela última vez? (Lemony Snicket e Seth) | A series of serendipity

    […] primeiro livro, o leitor acompanha o próprio Lemony na investigação do roubo da Fera Ressonante. Desta vez, ele […]

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