LIVROS

Vida Após a Morte (Damien Echols)

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Eu nunca tinha ouvido falar a respeito de Damien Echols, mas, depois de ler sua história, sinto quase como se tivesse conversado pessoalmente com ele, acompanhado sua infância pobre, sua adolescência difícil e sua vida adulta em grande parte manchada por um crime que ele não cometeu.

Vida Após a Morte não é, digamos, uma biografia convencional: o livro mistura lembranças de diferentes momentos da vida do autor, pulando da infância para a época em que esteve preso, indo à adolescência e novamente à infância antes de voltar aos dias de cadeia.

Outro olhar

A história, como vocês podem imaginar, é pesada, e parte da agonia de Damien (tomo a liberdade de chamá-lo pelo primeiro nome) passa para o leitor por meio de uma narrativa ágil e que descreve o necessário para uma boa ambientação.

É um livro extremamente envolvente, tocante, sem ser apelativo quanto à violência ou piegas em relação aos momentos de alegria ou de alívio. Para mim, cumpriu muito bem o propósito do autor, explicado já no prefácio:

“Fico aborrecido de imaginar as pessoas lendo minhas palavras por curiosidade mórbida. Quero que leiam o que escrevo porque isto tem um significado para elas – seja por fazê-las rir ou por lembrá-las de coisas esquecidas que em algum momento tiveram importância para elas, ou simplesmente por comovê-las de algum modo. (…) Se alguém começar a ler porque deseja ver a vida a partir de uma perspectiva diferente, ficarei satisfeito. Se lerem para saber como é a vida pelo meu ponto de vista, fico feliz.”

Damien vê com maus olhos aqueles que se interessam por histórias como a sua por simples curiosidade mórbida, ou pelo prazer com o sofrimento alheio. “Essas pessoas exalam o cheiro de abutres, e há algo de insalubre nelas”, diz, sem cerimônias. Esse livro não foi escrito pensando nessas pessoas. “Quero criar algo com uma beleza duradoura, não um circo de horrores”.

Gosto de livros que fazem com que eu me identifique com os personagens, que façam com que eu me importe com eles, como se fossem meus amigos. Vida Após a Morte conseguiu fazer isso, e de um modo diferente do qual estou acostumado, porque nesse caso a história é verídica.

Da pobreza ao cárcere

Vocês, tenho quase certeza, nunca foram presos (eu também não), e provavelmente não tiveram uma infância pobre. Ainda assim, é fácil se identificar com Damien, porque ele é como nós: procura coisas que agradem seu espírito, lida com dificuldades e faz tudo o que pode para encontrar sentido na sua caminhada. Seus desafios podem ser diferentes dos nossos, mas a jornada é similar.

O livro é escrito em primeira pessoa e tem capítulos relativamente curtos (um ou outro fogem do padrão). Até certa parte, a narrativa não é muito linear, alternando bastante entre infância, adolescência e vida adulta, mas não chega a ser confuso, e leva o leitor a se perguntar “por que esse cara por preso?”. Desde o início ele ressalta que foi por causa de um crime que não cometeu, mas só depois de alguns capítulos descobrimos os detalhes desse crime – que, inclusive, ganhou notoriedade na imprensa estadunidense e chamou a atenção de famosos como Johnny Depp e Peter Jackson.

Boa parte do material, pelo que entendi, foi escrita pelo autor quando ele ainda estava preso, enquanto outra parte foi escrita depois, já tendo em vista a publicação na forma de livro; há trechos de cartas (conforme o caso ganhava notoriedade, Damien começou a receber e a enviar cartas para pessoas que acompanhavam o desenrolar do processo) destacados em itálico (alguns dos últimos capítulos só têm esses textos, e o itálico acaba incomodando; essa é uma das únicas coisas de que não gostei no livro).

Uma das riquezas de Vida Após a Morte é a variedade de temas que o autor aborda: memórias específicas, reflexões, experiências espirituais e religiosas, momentos de angústia, coisas pequenas que têm grande significado para ele. No capítulo 11, por exemplo, há dicas de como “se virar” na prisão, improvisando um mini fogão ou mandando coisas para outros prisioneiros através da descarga do vaso da cela.

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Em tempo: o projeto gráfico é muito bem feito (as margens são de bom tamanho e a letra, embora pequena, não atrapalha a leitura), a capa chama a atenção e a divisão dos capítulos agiliza a leitura. A versão que a editora Intrínseca mandou está encadernada com espiral (ou seja, diferente da definitiva), mas imagino que a versão final tenha ficado tão confortável de ler quanto essa. Acho que fotos da cela ou de alguns dos vários julgamentos seriam um bom adendo e ajudariam a mergulhar mais na história, mas a ausência desses materiais não desmerecem o livro.

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Vida Após a Morte me fez refletir sobre muitas coisas, como o valor da liberdade e dos “detalhes” da vida; justiça, burocracia, sofrimento de vítimas e prisioneiros; empatia… É difícil resumir tudo em uma resenha, por isso deixo vocês com alguns trechos do livro e recomendo fortemente que leiam – tenho quase certeza de que mesmo aqueles que estão acostumados com histórias mais “leves” vão gostar.

E, se vocês quiserem saber mais sobre o caso de Damien Echols, podem dar uma olhada nos sites damienechols.com, theblueidepress.com e wm3.org ou seguir o autor no twitter (@damienechols – até mandei uma mensagem pra ele, dizendo que faria uma resenha).

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Aperitivos

“Há momentos em que minha mente grita para que meu corpo pare e diz que não é possível continuar por nem mais um segundo. Ignoro a advertência e me esforço para ir além daquele ponto. Apenas com o esforço para superar todos os limites impostos por minha mente e meu corpo é que sou capaz de nadar nas águas escuras que preciso atravessar. É daí que provém tudo que tem valor. É a dor da destruição de meus limites que me permite esquadrinhar a corrente em busca de mensagens em garrafas. Cada uma contém um fantasma e todas sobem a corrente. Não sei quem ou o que joga essas garrafas, pelo menos até agora não descobri. Aqueles com menos curiosidade ou ambição simplesmente murmuram que Deus trabalha de maneira misteriosa. Pretendo pegá-lo com a mão na massa”.

(p. 107)

“Mas falar desse tipo de coisa me deprime, e um homem em minha posição não pode se dar ao luxo de ficar deprimido. E nós dois, você e eu, estamos conversando. Como velhos amigos. Para quem mais eu estaria contando a história da minha vida? Vamos pular para quando as coisas se tornaram mais alegres, mesmo que por um breve período”.

(p. 143)

“Meu Deus, sinto falta do som das cigarras cantando. Eu costumava ficar sentado na varanda, ouvindo aquelas hordas invisíveis gritando nas árvores como loucas. O único lugar em que as ouço agora é na televisão. Já vi transmissões ao vivo nas quais era possível ouvi-las ao fundo. Quando percebi o que estava ouvindo, quase caí de joelhos soluçando e negando aos gritos tudo o que eu havia perdido, tudo que foi roubado de mim. É um som poderoso, o som que meu lar produziria se não estivesse a uma eternidade de distância.”

(p. 212)

24 Comentários + Comentários pelo Facebook
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  • Camila Baravelli

    Melina, meu comentário não é a respeito do seu post. Mas sim uma sugestão, não sei se voce ficou sabendo do que esta acontecendo em SANTA CRUZ DO ARARI. se não esta sabendo, eu vou lhe dizer! O prefeito da cidade está pagando 5 reais a cada morador para capturar cães de rua e estão sacrificando todos eles, torturando e afogando no rio. estou desesperada. O seu blog é perfeito, muita gente le, e muita gente te admira, sei que vai custar um pouquinho do seu tempo para isso, mas se voce pudesse fazer um post pequeno, pedindo ajuda, eu sei que muita gente ia parar para ajudar. Já começou a petição para que o prefeito seja punido, e já foram mais de 200 cães mortos, para assinar a petição é só entrar nesse site: Abaixo-assinado PELO FIM DA CAÇA AOS CÃES DE SANTA CRUZ DO ARARI : http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=P2013N41078 . Por favor, ajude

  • Carissa

    Não conhecia o livro, ainda não tinha visto nenhum resenha em algum dos blogs parceiros da Intrínseca que costumo acompanhar. E gostei da sua resenha, me deixou com vontade de ler.
    Vou adicionar à minha lista.

    Bjs

    • Gui

      Fico muito feliz em saber que gostou da resenha, Carissa! Tenho certeza de que vai gostar do livro também \o/

  • TheFosterJamEditorial

    Achei o estilo bem rock in roll,com uma história bem original,não li a resenha mas parece ser bem legal

    • Gui

      Dê uma olhada na resenha quando puder hehehe

  • Diego

    É um livro totalmente leio, vamos se através dessa leitura costumo ter outro gosto de leitura, pois, leio muito literário e também brasileiros, apesar que tenho uns internacionais. Vou ver se compro \o/ PARABÉNS PELA RESENHA :D

    • Gui

      Valeu, Diego!

      Estamos preparando resenhas de autores brasileiros, aliás. Aguarde!

  • Endrio

    Gui, aqui te vai uma crítica construtiva: você escreve super bem, mas tente fazer resenhas um pouco menores.

    • Gui

      Obrigado pela dica, Endrio! E olha que procurei ser sintético, mas preferi arriscar uma resenha um pouco maior, pra não deixar muita coisa de fora

  • marcelo perluiz

    Gostei da resenha e já comprei o meu exemplar, agora é só degustá-lo ok

    • Gui

      Opa! Quando puder, conte pra gente o que achou do livro, Marcelo \o/

  • allana evellyn

    Adorei a resenha! Já estava com vontade de lê-lo (mesmo não gostando muito de biografias, mas a capa e a história do Damien me chamaram a atenção) mas não achei muitas resenhas por aí…
    Gostei muito da resenha, e gostei também dela ser grande. Gosto de resenhas grandes, elas nos deixam com mais vontade de ler o livro do que uma visão muito resumida.

    • Gui

      Valeu, Allana!
      Não é uma biografia convencional (“Fulano nasceu no ano X e fez isso e aquilo”), por isso acho que você vai gostar bastante \o/

  • Fernanda Valverde

    Gostei muito! Parabéns pela resenha, Guilherme!
    Uma escritora que admiro muito e que é minha amiga, a Mayra Dias Gomes, fez uma matéria super bacana e o entrevistou para a Rolling Stones em janeiro. Tem essa matéria on-line, se você quiser dar uma olhada… Tenho certeza que você vai gostar.
    Mandei o link da resenha pra ela ler. :)

    • Melina

      Nossa, que legal :) Acho que ela vai gostar da resenha do meu irmão ;)
      Eu acompanhava a Mayra Dias Gomes no fotolog :P

      • Fernanda Valverde

        Olha, que bacana! “Conheci” ela assim também. Até que há dois anos atrás nos conhecemos pessoalmente! Foi muito bacana. :)
        A May é uma querida mesmo! Mandei o link pra ela e ela ficou super feliz em saber que estão falando sobre a história aqui no Brasil.
        Vou mandar pro seu irmão o link da matéria que ela.

        • Melina

          Você usou “bacana” mesmo haha e eu juro que não tinha visto o seu comentário quando escrevi o tweet :P
          Que jóia :D
          Manda pra mim também, chuchu :)

    • Gui

      Valeu, Fernanda! Fico feliz que tenha gostado e encaminhado a resenha pra mais gente ler \o/
      Vou procurar a entrevista que você sugeriu ;D

  • Marijleite

    Achei esse livro interessante. Guilherme, gostei da resenha e do seu avatar nos comentários. Vou pesquisar um pouco mais sobre Damien Echols.
    http://www.petalasdeliberdade.blogspot.com.br

    • Gui

      Valeu! :D
      (até atualizei o avatar: coloquei barba nele :P)

  • Nana

    Oi! :D Acompanho o blog da Mel há um bom tempo (e adoro aqui!), mas meu estilo de leitura é totalmente diferente do dela. Gosto bastante das suas resenhas e dos tipos de livro que você indica :) Parabéns!

    • Gui

      Valeu, Nana! Espero que essa obra se encaixe no seu estilo de leitura hehe

  • Fabio Monteiro de Barros

    O livro é interessante no sentido de mostrar o engano daquela visão do “american way of life”.Existe muita miséria mesmo nos EUA,ali no caso, no Sul, injustiças bárbaras, pessoas que não são gente são bichos dentro dos cárceres e espalhados no cerne do judiciário americano -porém a tradução desse livro é bastante fraca, e tira um pouco o brilho do original. Mesmo o original,percebe-se um defeito – gastou-se muitas paginas antes do ponto principal, com o autor debulhando uma vida de aventuras pouco atrativas pra o chamamento do estilo de literatura, mas vale a pena ler.

    • Gui

      É verdade, Fabio. Muita gente tem uma visão idealizada dos Estados Unidos, como se até as cadeias fossem “luxuosas”
      Não achei a tradução fraca e nem encarei como defeito a “enrolação” antes do ponto principal (que é a prisão e a libertação), pois acredito que tornou o livro mais rico. De qualquer forma, é sempre bom ouvir outra opinião! Valeu pelo comentário :D

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