Autismo (parte 1)
No dia mundial da conscientização do autismo eu fiz um post onde pedi para vocês compartilharem experiências com pessoas autistas e também suas dúvidas sobre o assunto. Anotei todas as perguntas, mas ao invés de fazer um post só respondendo tudo de uma vez, optei por dividir em três ou mais posts para não ficar muito longo e cansativo. Para começar, escolhi uma pergunta bem básica e muito importante: O que é o autismo?
Por mais simples que essa pergunta possa parecer, responde-la não é nada fácil, pois ainda não há uma definição consensual. Se você pesquisar em várias fontes (livros, sites etc.), irá encontrar diferentes termos na sua definição como ”desordem”, “distúrbio”, “transtorno”, “disfunção” e “síndrome” o que dificulta ainda mais na hora de escolher/formular uma resposta.
O autismo é considerado um distúrbio do comportamento e caracterizado por déficits na interação e comunicação social, restrita gama de interesses e por padrões de comportamentos repetitivos, estereotipados e maneirismos. Calma que eu já vou traduzir isso! O autismo é uma alteração provocada por diversos fatores (biológicos, genéticos etc.) que reflete nos comportamentos de socialização (interação e comunicação com outras pessoas). Além dessa dificuldade em interagir socialmente, os autistas demonstram interesse por poucas coisas/assuntos, por exemplo, colecionar cordões, pedras, bonecos etc. e tem comportamentos repetitivos como fazer o mesmo movimento várias vezes por horas ou assistir várias vezes o mesmo dvd.
Os sintomas como respostas anormais a estímulos auditivos/visuais, problemas graves na compreensão da linguagem oral e o atraso na fala podem ser vistos antes dos três anos de idade. Já os problemas relacionados a socialização como a incapacidade de contato olho-a-olho, participar de jogos em grupos ou manter contato físico podem ser observados antes dos cinco anos de idade. Quando antes os pais perceberem e levar para profissionais avaliarem o caso, melhor.
Bom, essas são as características gerais, mas há diferentes tipos/níveis de autismo, só que isso é assunto pra outro post :)
Agora que vocês já sabem a definição técnica vou falar um pouquinho da minha experiência:
Quando me perguntam o que é autismo gosto de dizer que é uma forma especial de viver no mundo. Eu fiz um trabalho voluntário durante um ano em uma escola de educação especial aqui de Curitiba chamada Alternativa. Lá tive a oportunidade de conviver com crianças e adolescentes com diferentes diagnósticos e aprender muito (muito mesmo) com cada um deles e também com os profissionais da escola.
Cada pessoa é única, certo? Isso também vale para aquelas com o diagnóstico de autismo: cada uma é única. Embora eu tenha tido contato com várias crianças e adolescentes, vou contar um caso em especial. Já no meu primeiro dia na escola, um adolescente de 15/16 anos diagnosticado como autista chamou a minha atenção. Aos poucos fui tentando me aproximar dele na sala de aula e também na hora do intervalo. Eu queria muito entender como ele via o mundo e descobrir uma forma de ajudá-lo. Depois de algumas semanas frequentando a escola (eu ia duas/três vezes por semana) ele encostou a ponta do dedo no meu braço (cutucou) e eu olhei pra ele e sorri. A cada dia que eu ia para a escola ele ia se aproximando mais de mim e se acostumando com a minha presença. Foi algo gradual, não forcei a minha presença, apenas demonstrava pra ele (e para os outros alunos, claro!) que eu estava lá também. Um dia me atrasei e cheguei na hora do intervalo e fui direto para o pátio. Quando olhei para frente, vi que o João (nome fictício) estava se aproximando meio rápido e fiquei parada. Quando ele chegou bem perto, me deu um abraço bem rapidinho e parou do meu lado. Nunca esqueci essa cena e tenho certeza de que nunca vou esquecer :)
Falando em cenas especiais, quero compartilhar mais uma com vocês: em um dia lindo e chuvoso tivemos que ficar dentro da sala e o João ficou na janela olhando a chuva. Eu estava meio longe, mas ele me chamou (não com palavras, mas com gestos) até a janela. Entendi que ele queria que eu abrisse e fiz isso. Ele olhou um pouco e colocou bem devagar a mão e sentiu uma gota cair. Encolheu a mão, olhou pra mim e colocou de novo do lado de fora e enquanto os pingos caiam ele sorria. Achei essa cena tão linda e sincera que só de lembrar dela eu fico sorrindo.
Bom, pessoal! Esse foi só o primeiro post sobre esse mundo especial (o próximo será publicado semana que vem). Muitos de vocês já deixaram depoimentos aqui no blog, mas vou ficar muito feliz em ler mais experiências de vocês então quem quiser compartilhar algo, fique à vontade :)
Ah, podem deixar mais dúvidas nos comentários também, tá?
Obrigada por tudo, pessoal!
xoxo
ps: em breve vocês verão mais fotos dessa garotinha linda da foto de abertura que eu tive o prazer de fotografar ;)







